Esta é a carta que já devia ter-te escrito.
Antes de mais, olá mãe. Será que sabes quem sou? Depois de
veres o meu nome, já chegas lá.
Sim, sou eu, aquela filha que tu há sensivelmente 22 anos
abandonaste, aquela criança indefesa que tu beliscavas quando chorava, aquela a
quem tu davas banho de água fria porque simplesmente te dava prazer magoar-me.
Aquela a quem tu ainda davas pastéis de nata e me despachavas, em pequena (não
cresci muito fisicamente até) naquele café onde trabalhavas em Belém… Sim, dos
pastéis eu lembro-me bem, não é à toa que sou gulosa e adoro doces, talvez até
saia a ti nesse aspeto. Acho que essa é a única parte da minha memória em que
me lembro de ti, de forma clara. Já falamos mais de mim...
Sabes o meu pai? Depois de o deixares ele desmoronou, aos
poucos, mas desmoronou, por completo, até hoje. E com ele, desmoronei eu
também, com o passar do tempo cada vez mais. Mas estamos a falar nele… Sabes no
CACO em que ele se tornou durante estes anos todos? Ele desistiu da vida,
desistiu dele e desistiu de mim. Hoje em dia ele não passa sem a bebida, tem várias doenças graves, está magro como um palito, não tem auto-estima, não trata de si mesmo, nem sequer já sorri. E a culpa é tua, tu
deixaste-o, e com isso deixaste-me também a mim, ABANDONASTE-ME. Fizeste com
que eu crescesse sem uma mãe, de sangue. Fizeste-me crescer sem ter alguém a
quem eu pudesse dar a prenda do dia da mãe, ou simplesmente um beijo quando
chegasse a casa. Deixaste-me sem ter alguém a quem recorrer quando tinha
problemas de amor, amizade ou simplesmente problemas da escola, para desabafar.
Fizeste-me crescer sem ter o amor de mãe que qualquer criança necessita para
crescer e ser alguém um dia.
Voltando um pouco atrás no tempo, lembraste tia…? E da minha
avó…? Lembraste delas? Provavelmente talvez até não... Mas eu lembro-me, bem.
Sabes porquê? Porque foram elas quem desempenharam o papel que tu devias ter
desempenhado, na minha vida. E sabes o mais irónico disto tudo? Já estou sem as
duas na minha vida… E tu deves continuar por aí, na tua boa vida, sem mim.
Foram elas que me educaram, foram elas que cuidaram de mim, foram elas que me
vestiram, que me calçaram, que me alimentaram, foram elas que me deram amor,
foram elas que fizeram tudo por mim, foram elas que FIZERAM DE MIM AQUILO QUE
SOU HOJE! São elas que me fazem falta e eram elas que me faziam feliz. Nunca na
vida eu vou conseguir-lhes agradecer tudo aquilo que fizeram por mim! Só queria
poder tê-las aqui, junto a mim. A minha tia, faleceu há quase 8 anos e a minha
avó, faleceu há duas semanas atrás.
Falando novamente de mim… Sabes que eu cresci? Tenho
quase 22 anos (se é que ainda te lembras da minha data de nascimento), estudei,
tirei dois cursos, um profissional e um técnico. Neste momento trabalho, não na
minha área, mas num Jardim de Infância. Irónico, não é? Trabalho com crianças,
aquelas que tu preferes abandonar em vez de amar.
Dizem que eu “sou a tua cara chapada”, não sei se é
verdade, mas presumo que sim, já que imensas pessoas que te conheceram me dizem
o mesmo. Há quem me fale mal de ti, há quem me diga para repensar e ouvir-te.
Mas… Lembraste quando eu tinha 16 anos? Foi mais ao menos na altura que
recebeste uma carta do tribunal a dar conta de que estavas notificada para
comparecer, em vídeo conferência, para seres ouvida em tribunal, porque a minha
avó tinha pedido a pensão de alimentos. Lembraste agora, certo? Pronto…
Lembraste também que nessa altura disseste na cara do juiz que não me querias
conhecer… Certo? Nem sequer tentaste procurar-me. Nem nessa altura, nem nunca.
Em quase 22 anos, eu nunca recebi uma tentativa tua de contacto. Porquê? Porque
me abandonaste? Porque nunca me procuraste? Porque desapareceste do nada?
Porque nunca te preocupaste em conhecer-me? Porque me deixaste crescer sem ti? Porque
me afastaste da minha irmã e dos meus irmãos? Porque fizeste com que eu não os
tenha conhecido? Porque me fizeste isto? Porquê?!
A minha tia e a minha avó, sempre lutaram para eu ter tudo aquilo que necessitava, para me fazerem sorrir, para me fazerem feliz. Mas apesar de todo o esforço (e acredita que foi muito mesmo, durante anos) que fizeram para desempenhar o teu papel, e por mais que eu as ame mais que tudo na minha vida, faltou-me sempre algo, faltou-me sempre alguém. E acabou por me faltar dois alguéns, tu e o pai. Acabou por me faltar o amor dos dois. Porque embora ele não quisesse deixar-me para trás, acabou por deixar. E continua a fazê-lo. E eu sei que nunca mais vai mudar. Sei que nada o irá fazer reerguer-se. Eu acho que ele te vê em mim de certa maneira e por isso continuou sempre a sofrer e se deixou desmoronar. Embora eu queira que ele se reerga, isso nunca vai acontecer. O que me dói mais é que nunca consegui ter aquela “ligação especial” de filha e pai, com ele. O que me dói mais é vê-lo a destruir-se a cada dia que passa, com o tabaco e a bebida. O que me dói mais é que ele vai ser a próxima pessoa que eu vou perder, muito provavelmente. O que me dói mais foi eu ter sido obrigada a crescer, a crescer rápido, por tua causa, por vossa causa. O que me dói mais, por mais estúpido que possa parecer, é não te ter. O que me dói mais é eu querer conhecer-te e ouvir-te, mesmo a minha avó, tia e pai me pedirem para não o fazer! O que me dói mais é o meu pai me dizer que se eu te procurar, será o maior desgosto que eu lhe posso dar. O que me dói mais foi ter perdido as duas mulheres da minha vida, os meus pilares! E embora eu te odeie, também sinto que te amo. Que sentimento estúpido este. Embora eu te queira conhecer, tenho medo de te bater à porta mesmo tendo a tua morada comigo há anos. Tenho medo que me rejeites, nos olhos. Tenho medo que finjas não me reconhecer, medo que não me queiras reconhecer. Estive aí perto, aquando do funeral da minha avó. Mas bater-te à porta? Não fui capaz, nem sei se algum dia serei.
A minha tia e a minha avó, sempre lutaram para eu ter tudo aquilo que necessitava, para me fazerem sorrir, para me fazerem feliz. Mas apesar de todo o esforço (e acredita que foi muito mesmo, durante anos) que fizeram para desempenhar o teu papel, e por mais que eu as ame mais que tudo na minha vida, faltou-me sempre algo, faltou-me sempre alguém. E acabou por me faltar dois alguéns, tu e o pai. Acabou por me faltar o amor dos dois. Porque embora ele não quisesse deixar-me para trás, acabou por deixar. E continua a fazê-lo. E eu sei que nunca mais vai mudar. Sei que nada o irá fazer reerguer-se. Eu acho que ele te vê em mim de certa maneira e por isso continuou sempre a sofrer e se deixou desmoronar. Embora eu queira que ele se reerga, isso nunca vai acontecer. O que me dói mais é que nunca consegui ter aquela “ligação especial” de filha e pai, com ele. O que me dói mais é vê-lo a destruir-se a cada dia que passa, com o tabaco e a bebida. O que me dói mais é que ele vai ser a próxima pessoa que eu vou perder, muito provavelmente. O que me dói mais foi eu ter sido obrigada a crescer, a crescer rápido, por tua causa, por vossa causa. O que me dói mais, por mais estúpido que possa parecer, é não te ter. O que me dói mais é eu querer conhecer-te e ouvir-te, mesmo a minha avó, tia e pai me pedirem para não o fazer! O que me dói mais é o meu pai me dizer que se eu te procurar, será o maior desgosto que eu lhe posso dar. O que me dói mais foi ter perdido as duas mulheres da minha vida, os meus pilares! E embora eu te odeie, também sinto que te amo. Que sentimento estúpido este. Embora eu te queira conhecer, tenho medo de te bater à porta mesmo tendo a tua morada comigo há anos. Tenho medo que me rejeites, nos olhos. Tenho medo que finjas não me reconhecer, medo que não me queiras reconhecer. Estive aí perto, aquando do funeral da minha avó. Mas bater-te à porta? Não fui capaz, nem sei se algum dia serei.
Ah, mas continuando a falar de mim… Tenho uma paixão
declarada por futsal e já joguei federada durante algum tempo. Adoro sorrir e
fazer palhaçadas para fazer rir os outros. Gosto de raparigas e tenho a mulher
da minha vida ao meu lado, há dois anos e meio. Não me importa se aceitas ou
não, nunca me importei que alguém aceitasse, a não ser a minha tia, a minha avó
e o meu pai e esses aceitaram. Sou muito dada a mimos, tanto para dar como para
receber.
O meu prato preferido é bacalhau à Brás. A minha bebida favorita é Coca-Cola. Sou completamente viciada em McDonald's, em Baguetes do Pão Pão Queijo Queijo e em Pizas da D. Isabel. Adoro doces e coisas que engordam (é, tenho esse defeito só mesmo), adoro tudo o que tenha a ver com tecnologia, mais especialmente informática e computadores (este último é um dos motivos porque esta carta não vai escrita em papel com a minha linda letra). Não consigo passar sem Internet, passo maior parte do tempo que tenho livre, no portátil. Adoro ver séries. Adoro caramelos. Odeio cogumelos e favas. Sou viciada em delicias do mar. Não saio de casa sem o meu telemóvel, é algo que não passo sem também. E não viajo para longe sem o meu menino (o meu portátil). Já disse que sou completamente viciada em McDonald's?!
O meu prato preferido é bacalhau à Brás. A minha bebida favorita é Coca-Cola. Sou completamente viciada em McDonald's, em Baguetes do Pão Pão Queijo Queijo e em Pizas da D. Isabel. Adoro doces e coisas que engordam (é, tenho esse defeito só mesmo), adoro tudo o que tenha a ver com tecnologia, mais especialmente informática e computadores (este último é um dos motivos porque esta carta não vai escrita em papel com a minha linda letra). Não consigo passar sem Internet, passo maior parte do tempo que tenho livre, no portátil. Adoro ver séries. Adoro caramelos. Odeio cogumelos e favas. Sou viciada em delicias do mar. Não saio de casa sem o meu telemóvel, é algo que não passo sem também. E não viajo para longe sem o meu menino (o meu portátil). Já disse que sou completamente viciada em McDonald's?!
Sou uma miúda simpática e muito divertida, adoro rir e
fazer rir. Não gosto de ver as pessoas tristes e faço sempre algo para as poder
animar. Adoro ajudar os outros e sempre que posso faço-o.
O meu sonho sempre foi ser veterinária, desde pequenina
(de idade, porque de altura ainda o sou) que sempre quis, mas infelizmente, até
agora ainda não tive essa oportunidade. O meu próximo objectivo, mal possa
financeiramente, é tirar a carta.
Não sou vingativa nem tão pouco rancorosa, talvez por
isso te escrevo esta carta.
Sempre fui boa aluna, chumbei um ano por faltas, talvez
por minha estupidez só, não sei. Os professores/formadores sempre me disseram
que eu era capaz de mais. Também acho.
Nunca fui de sair à noite, sempre fui muito “certinha”,
embora sempre tivesse tido liberdade para o fazer. Já sofri muito para tão
pouco tempo de vida, mas sempre tive forças para lutar e ultrapassar, nem sei
como. Mas neste momento sinto-me em baixo, sem forças, talvez por isso também,
te escreva.
Em termos de saúde estou bem, tirando um problema nas
pernas e no coração, por causa daquela cinta que tu usavas quando estavas
grávida, lembraste disso? Não sei porque me registaste com o teu nome… Sabes
que é horrível ter o teu nome no meu Cartão de Cidadão e ter de dizer que “não
existes”? Sabes o quanto é difícil aguentar a pena que as pessoas sentiram e
sentem de mim, por não te ter?! Sim, eu sofro, mas não quero que tenham pena de
mim!
Odeio que as pessoas me falem na minha mãe e eu ter que
dizer que não tenho uma e explicar o inicio da história, porque embora eu diga
“não faz mal” falarem disso, faz-me muito mal. Amo o meu trabalho actual, dá-me
vida, dá-me ânimo. Só tenho pena que esteja a acabar.
Sabes o teu afilhado? Ele já tem um filhote, com 5 aninhos,
e é uma das pessoas que mais amo nesta vida! É o meu “pilinhas”!
Quanto a mim não há muito mais a dizer. A não ser que não
merecia o que tu me fizeste, não merecia que me tivesses deixado, porque embora
eu tivesse “aparecido” por acidente, eu não pedi nada disto, eu era inocente.
Há muito mais por dizer, mas estou perdida nas palavras.
Espero que um dia possas amar-me, como devias ter amado
há quase 22 anos atrás, espero que percebas o quanto erraste e te arrependas
amargamente de me teres abandonado, a mim e à minha irmã. E não, eu nunca me
esqueci daquela ida com ela ao jardim zoológico, é a única memória dela que
tenho. Infelizmente, dela, eu não sei absolutamente nada a não ser o primeiro
nome e o do meio.
Odeio-te, mas sinto que te amo.
Com tudo isto me despeço, por enquanto. Sempre me ficas a
conhecer um pouco… Foi também esse o meu objectivo, ao falar sobre mim.
Adeus, até qualquer dia…

As nossas decisões e atitudes têm importância na vida de outras pessoas. Enquanto prevalecer o egoísmo e o egocentrismo, muita gente sofrerá a curto ou médio prazo. Não digo que se consiga evitar tudo, mas será assim tão difícil pensar nos outros? Ver outra perspectiva? Pensar de forma diferente.
ResponderEliminarLamento acima de tudo que tenhas de desabafar tudo isto que nunca disseste. Peço-te que tentes ver sempre o lado positivo. Mesmo que não pareça, ele existe sempre.
Sim, é verdade. Infelizmente há muita gente que toma más decisões. Só tenho pena que neste caso específico, a pessoa não se tenha sequer arrependido, por três vezes consecutivas.
EliminarObrigada pelas palavras e pelo apoio. Eu tento ver sempre o lado positivo, mas acredita que, para mim, é muito complicado, pois existem muitas mais coisas a tornarem-me pessimista.