terça-feira, 9 de novembro de 2021

Vida e Perdas.

 

Ao longo da minha vida eu fui perdendo tudo o que eu mais amava e isso desfez um pouco da essência que eu sempre tive em mim. Tudo começou três meses depois de eu nascer… Eu sinto que a amava mas tudo indicou e indica que ela nunca me amou. Carregou-me na sua barriga durante 9 meses e passado três meses de eu nascer, simplesmente foi embora. Foi embora da minha vida como se eu não significasse nada. Não a consigo chamar de mãe porque sinto que ela nunca o foi. Lembro-me ainda de quando tinha talvez uns 4/5 anos em que ia ter com ela a um café (supostamente a minha tia levava-me às escondidas de todos, segundo ela) em que me dava sempre um pastel de nata e um pouco de amor (achava eu) e eu ficava toda feliz, como criança que era. Depois disso nunca mais a vi. Só ouvia falar dela. Falarem mal dela. A verdade é que ela nunca me fez falta, até talvez aos meus 20/21 anos, que foi quando comecei mais a pensar nela e no porquê de ela ter feito o que fez. Eu tinha a morada dela escrita num papel guardado na minha carteira, desde os meus 15 anos. Nunca tive coragem de a procurar. Apenas aos 20/21 anos. Fui. Toquei à campainha. Eu no alto da minha inocência “sou tua filha, quero conhecer-te e quero perceber o porquê de me teres abandonado”. Ela só me diz “eu sei quem tu és porque és igual a mim”. Mandou-me entrar e contou-me uma data de mentiras, presumo eu. Chorou, abraçou-me, trocámos número de telemóvel… Disse “eu sei que sou tua mãe mas eu não sinto absolutamente nada por ti mas vamos tentar criar esta relação de mãe e filha”. Passado uns dias desapareceu de novo, até hoje. A minha pergunta é: que mãe faz isto a um filho? Só prova que nunca me enganaram em relação a ela. Mas enfim, essa foi uma das coisas que eu “amava inocentemente” e perdi. 

 

O futsal era uma paixão para mim, uma paixão tão grande que eu passava mais tempo com a bola no pé do que a fazer qualquer outra coisa. Fui obrigada a abandonar. Até hoje é uma das minhas maiores mágoas. Sinto falta daquilo.


Ainda nesses mesmos anos, perdi a minha tia, essa que sim, era a mulher da minha vida e a melhor mãe que eu poderia ter tido durante os meus primeiros anos de vida e mais uns quantos. Foi das piores coisas que me aconteceu, desde que eu me lembro de existir e o meu mundo desabou. Não consigo contar as memórias todas que temos juntas, são tantas…. E boas! As melhores! Essa sim, será a minha eterna mãe. 

Como se já não bastasse de perdas, outra mulher da minha vida parte. E mais uma vez, como aconteceu com a minha tia, eu não estava presente. Soube por telefone também. A minha avó partiu. Embora já estivéssemos à espera, nunca estamos verdadeiramente à espera. Não é? E doeu, doeu tanto. Afinal de contas tanto ela como a minha tia criaram-me desde bebé. 


Segue-se o meu pai…sempre ausente. Sempre a trabalhar e sempre a portar-se mal. Sempre a pregar-nos os maiores sustos. Na verdade nunca tivemos aquela relação de pai e filha, numa aconteceu um abraço ou um carinho entre nós, sem ser no dia antes de ele morrer. Nunca houve um “amo-te” sem ser nesse mesmo dia. Nunca criámos aquele laço. Mas eu sei que ele me amava e ele sabia que eu o amava. Mais do que tudo. Apesar das zangas, apesar das discussões. Apesar de ele se portar sempre mal. Ele nunca me abandonou! 

O último dia que estive com ele, foi sem dúvida o pior dia da minha vida. Vê-lo ali, sem falar, sem se mexer, com as lágrimas a escorrer-lhe pelo rosto. Eu a dizer que o amava, vezes sem conta. Disse-lhe tudo o que sempre senti e nunca tive coragem de dizer. E ele entendia tudo, eu sei que sim. Nunca esperei perdê-lo. Talvez porque sempre esteve perto de acontecer e ele “safava-se sempre”.  Erro meu. Deixei-o sozinho uns dias e foi o suficiente. Será que foi culpa minha tudo o que aconteceu? Sinceramente eu não sei responder a essa pergunta e não sei se alguma vez irei saber. Mas aconteceu tudo tão depressa. Foi a pior tarde da minha vida. Desde a chamada do médico, ao último abraço e beijo que lhe dei. Carregada de máscara, fatos, viseira, luvas… Carregada de lágrimas de tanto que chorei. 3h sensivelmente ali, agarrada a ele, a chorar, a repetir vezes sem conta a mesma coisa, para que ele partisse sem qualquer tipo de dúvidas… Meu garnizé, meu pai, meu tudo. Como ele dizia, eu era a menina dele, ele sempre o mostrou e sempre falou de mim a todos com orgulho, segundo ele, na mulher que eu me tornei. Ele sempre mostrou que me amava, embora nunca o tenha dito. E eu sei que ter-me ali ao lado dele, foi o melhor que ele podia ter tido. E se me tivessem deixado, eu teria ficado ali, agarrada a ele, até ao fim, até ao último suspiro. Mas fui tirada dali quase à força, graças ao covid. Não pude continuar ali com ele. E no dia seguinte recebo a notícia do pior. Foi mesmo o pior dia da minha vida. Perdi uma das últimas pessoas que me restava… Toda a minha vida a aprender a viver sem as pessoas que eu mais amo. Aprender nunca aprendo. Porque cada vez dói mais. Quase 7 meses se passaram e ainda não fui capaz de ir à arrecadação tratar das coisas dele. Não sei se algum dia serei sequer capaz. 

 

Toda a minha vida é feita de perdas e eu não sei onde sempre fui buscar forças para continuar. Porque eu juro que às vezes não tenho vontade de continuar. 

Tem dias que só me apetece continuar a dormir. 

Mas maior parte dos dias, visto o meu disfarce e está tudo bem. Mas nos meus momentos sozinha, tudo desaba. Eu só queria ter todos de volta. Ter tempo de viver com eles tudo o que eu deveria ter vivido. Ter tempo de aproveitar. Porque eu era criança demais para aproveitar. Mesmo com o meu pai, deveria ter aproveitado mais e melhor. E eles sempre serão os meus anjos da guarda. Talvez por isso eu nunca tenha desistido. Talvez por isso já tenha percorrido várias zonas do país e pelo caminho tenha caído tantas vezes… Mas sempre consegui levantar-me. Não sei é como. Porque estou farta de perder as pessoas que me são próximas, pessoas que eu amo, pessoas boas e que não mereciam o que lhes aconteceu. Pessoas que eu merecia ainda ter na minha vida. Porque eu ainda não vivi tudo com elas. Ainda não amei tudo, ainda não brinquei tudo, ainda não sorri tudo. 

Isto é só um desabafo…precisei de escrever e resolvi publicar. Talvez um dia escreva mais… Porque há tanto da minha vida por escrever…tanto por contar.